‘Lady' Margaret Hilda Thatcher, baronesa do Reino Unido, mais conhecida enquanto governante de punhos de renda e vontade indómita, morreu enquanto personagem histórica com uma influência fulcral no sistema de Governo, e nas opções económicas e filosóficas subjacentes, de todo o mundo entre 1980 e 2008.
‘Lady' Margaret Thatcher e Ronald Reagan, influenciados por Hayek e Friedman, estabeleceram um novo modelo de funcionamento económico. Onde as três décadas anteriores tinham visto o primado da Economia Keynesiana, Thatcher e Reagan ousaram romper com o status quo. A um tempo em que Mitterrand, em França, nacionaliza grandes empresas, Thatcher privatiza, ataca os sindicatos e introduz mais princípios de mercado em serviços e provisões de bens públicos. Não tardaria que Mitterrand, o campeão do socialismo democrático, lhe seguisse os passos... E durante quase três décadas o legado de ‘lady' Thatcher pareceu vingar um pouco por todo o mundo: uma Economia de mercado liberalizada que resultou em baixas inflação e taxas de juro, com os produtos internos brutos das nações a crescer, a globalização em afirmação e a espalhar benefícios por todo o mundo em desenvolvimento (foram as décadas mais impressionantes de sempre no combate à pobreza mundial, com centenas de milhões a emergirem das fileiras das subclasses e a alcandorarem-se às classes médias). E qual cereja em cima do bolo, os mercados accionistas tornaram alguns milhões de cidadãos de classe média em cidadãos mais afortunados, fruto de uma subida geral dos valores mobiliários nas bolsas mundiais, durante as duas décadas de predomínio filosófico e político do legado de ‘lady' Thatcher. Sarkosy, quando é eleito para Presidente da República francesa proclama que tem como modelo de governação a senhora Thatcher e que a França precisa de um choque de vigor e de liberdade económica tal como aquela fizera no Reino Unido. Esta declaração marca, a nosso ver, o culminar da influência do legado Thatcher. Este, nos anos mais recentes, tinha evoluído de forma assinalável nos mercados financeiros: da desregulamentação inicial, passou-se para novos paradigmas como o ‘shareholder value', a independência dos bancos centrais e dos reguladores dos mercados de capitais (o que em si era benéfico, retirando aos políticos a capacidade de influência quotidiana). Em breve, os "polícias" dos mercados monetários e de capitais adoptaram uma Política de Regulação de tipo ‘light touch' (onde a ganância, a amoralidade e a falta de decência, encontraram terreno fértil para os excessos dos ‘subprimes' e afins...). E no desenrolar da crise económica são estes mesmos pilares, do legado Thatcher, que estão sob o foco e o ataque de políticos, opiniões públicas, comunicação social, organizações não governamentais e sindicatos. Mais regulamentação (vejam-se as novas directivas comunitárias e a sua transposição para o ordenamento jurídico português), mais ênfase na comunidade e na responsabilidade social das empresas (a que os dirigentes das empresas não se têm furtado; por todos, vejam-se as posturas exemplares de Soares dos Santos, Ricardo Salgado, Zeinal Bava e Paulo Azevedo), mais intervenção do Estado na Economia (nacionalizações, tributação extra de rendimentos e prémios, e o mais que está para vir). Num mundo que parece estar em desmoronamento, Sarkosy, sintomaticamente, posa recentemente junto a um exemplar do livro de Marx, "O Capital" (caso para dizer que a convicção liberal de Sarkosy não seria muita....). Louçã, Sousa Santos, Jerónimo, Mário Soares, entre tantos, proclamam que o modelo de Economia Liberal (o legado de Thatcher) está morto. Seria caso para concordar, não fora o facto de não existir nenhuma alternativa política credível e provada...Nenhuma saída mágica da crise, nenhuma ideologia redentora para além de muito trabalho, estudo, engenho e ética.
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Paulo Gonçalves Marcos, Economista, gestor, professor universitário