INVESTIMENTO DOS BUSINESS ANGELS NA EUROPA SUPERA O VENTURE CAPITAL Imprimir E-mail :
27-Out-2008
 

Entrevista de João Trigo da Roza, MBA 275, conduzida pela jornalista Helena Rua, e publicada no diário OJE.

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Segunda Feira, 27 de Outubro de 2008


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No dia em que se realiza o jantar trimestral promovido pela Associação Portuguesa de Business Angels, que vai contar com Mira Amaral como orador convidado, o presidente João Trigo da Roza explica a Helena Rua o desenvolvimento da actividade dos Business Angels em Portugal e de que forma a APBA vai ganhar com a crise.


Porque foi criada a APBA em 2006? 
A associação foi criada quando um conjunto de empresários e gestores sentiu que era importante ter como missão apoiar o empreendedorismo em Portugal e, assim, ajudar a fazer nascer oportunidades que, de outra forma, teriam dificuldades em ver nascer a luz do dia. 

Porquê o modelo de associação? 
Juntos podemos fazer mais e melhores investimentos. Desta forma podemos captar mais projectos do que individualmente e podemos melhorar a qualidade do nosso investimento porque aumentamos as nossas capacidades e valências. 

De que forma a criação do novo regime jurídico aplicável à actividade de Business Angel veio beneficiar a associação? 
Inicialmente tivemos expectativas elevadas em relação ao regime jurídico que cria a figura de IRC. O IRC, de acordo com esse regime, é uma sociedade unipessoal. Mas essas expectativas foram goradas dentro do contexto do Orçamento Geral de Estado de 2008. Na prática, o IRC foi equiparado a outras sociedades de investimento, como as sociedades de capital de risco ou SGPS, sem grandes vantagens. Na prática não se criou nenhum IRC e não houve ninguém que se registasse junto da CMVM como Business Angel. Esse veículo, embora a intenção inicial fosse boa, acabou por não ser interessante do ponto de vista fiscal. Nesse sentido fizemos um conjunto de propostas, no ano passado e este ano novamente, ao ministério das Finanças de forma a melhorar o enquadramento dos benefícios fiscais. 

Que propostas foram essas? 
A nossa proposta inspira-se num modelo inglês que se chama Enterprise Investor Scheme. Este modelo tem tido grande sucesso em Inglaterra. Nesse país, os Business Angels podem deduzir à colecta uma percentagem do seu investimento feito em empresas de start up, que ronda os 20% com um máximo de 500 mil libras. Este é um verdadeiro incentivo para que as pessoas, em vez de investirem em acções na bolsa, invistam em empresas em early stage. Com este esquema de incentivos inglês, 14 mil empresas receberam investimentos na ordem dos 7 mil milhões de euros. No prazo de meia dúzia de anos terá um impacto enorme ao nível das economias. A nível europeu estima-se que menos de 3,5% do investimento das capitais de risco seja feito na fase de early stage. O restante é capital de expansão ou os chamados buyouts. Isso faz com que hoje o investimento dos Business Angels ao nível da Europa seja já superior ao do venture capital. 

Quais são as principais diferenças entre capital de risco e a actividade dos Business Angels? 
Ao nível das semelhanças, os Business Angels são capital de risco, mas informal. Enquanto o venture capital funciona normalmente com sociedades organizadas que acabam por actuar com um conjunto de procedimentos, os Business Angels têm uma actuação mais informal. Para além disto, os Business Angels actuam numa fase chamada seed capital, ou seja, quando a empresa ainda está em formação e não tem clientes, e também na fase de start up, quando está em fase nascente. O venture capital actua normalmente numa fase de maior expansão, embora haja excepções. Nós acompanhamos ainda de forma muito próxima as empresas em que investimos. O venture capital tem uma óptica mais financeira e, por vezes, também próxima do investimento. Depende do perfil. 

O Business Angel fica então com uma participação na empresa... 
O investimento é feito a troco de uma percentagem da empresa. 

Essa ligação mantém-se depois da empresa entrar em fase de expansão? 
Depende dos projectos. O Business Angel não investe a pensar que vai sair passados seis meses. Vai sair passados três a cinco anos e normalmente vende a participação quando a empresa é alienada a uma grande companhia que a absorve ou quando entra um fundo de capital de risco que quer tomar conta do negócio. 

Quanto estimam investir este ano e em quantos projectos? 
Nos próximos 12 meses gostaríamos de investir entre 1,5 ou 2 milhões de euros, que se poderiam complementar com coinvestimentos de outras entidades, nomeadamente de fundos de capital de risco de early stage. Esta é uma situação que tem sucedido ultimamente. Por outro lado, os nossos objectivos não passam pela quantidade. Sobretudo queremos projectos verdadeiramente diferentes, ou seja, projectos nascentes, mas cujo potencial de crescimento seja elevado. 

Quanto investem em cada negócio? 
Em média investimos entre 150 mil e 200 mil euros pelo lado do Business Angel, sendo que pode haver o co-investimento com outras entidades. Esse é o número médio da Europa e dos EUA. 

Quantas propostas recebem anualmente? 
Estamos a receber por ano mais de 100. 

Que projectos têm actualmente em curso? 
Temos um conjunto de projectos, sendo que o mais recente é na área dos serviços. Foi realizado em co-investimento com a InovCapital, uma parceria que foi criada este ano. O projecto consiste no serviço de manutenção de PC em casa. Chama-se HomePC e foi detectada por um empreendedor. Depois de a sociedade ser desenvolvida, houve um Business Angel da APDA que, em co-investimento com a InovCapital, resolveu apoiar o projecto. Além disso, temos investido na área da Biotecnologia e do Software e Tecnologias de Informação. 

Como é que são apresentados os projectos e quanto tempo demoram a ser aprovados? 
Os projectos podem ser apresentados na APDA ou no site www.apda,pt. A partir dessa altura, o projecto é divulgado junto de todos os associados e é analisado por uma comissão. Após ter passado por esta fase, normalmente pedimos aos empreendedores para apresentarem os projectos pessoalmente à associação, normalmente num jantar trimestral. Este processo todo demora cerca de um mês, sendo que o processo total até ao investimento pode demorar dois ou três meses. 

Em que consistem os jantares, como o que vai ser realizado hoje? 
No fundo, é o culminar do processo de selecção de projectos, aonde reunimos todos os sócios da APDA e apresentamos dois ou três projectos que achamos que são os mais interessantes. Funciona como um fórum de network de negócio entre todos os associados onde aparecem esses projectos. É aí normalmente que as pessoas se entusiasmam e decidem investir. 

Quais são as áreas de negócio onde considera haver lacunas e que seriam alvo de investimento? 
Mais do que lacunas, há áreas com oportunidades importantes em Portugal ligadas à vocação da nossa indústria. Por exemplo, Portugal é um país com a área das telecomunicações muito desenvolvida, onde existe uma competição elevada, com players muito sofisticados ao nível dos produtos e do marketing. É normal que apareça todo um conjunto de start ups que querem servir e alavancar nessa indústria. Ultimamente também temos tido vários projectos, não tanto pelo lado da indústria, mas pelo lado da oferta - porque começa a haver instituições universitárias com capital intelectual muito interessante - na área da saúde ligada à biotecnologia. Há projectos muito interessantes nessa área que merecem que se olhe para eles e se estude o seu financiamento. As tecnologias de informação ligadas ao sector da banca também têm interesse porque são uma área muito evoluída. 

A crise dos mercados financeiros veio de alguma forma impulsionar o número de empreendedores que recorre à associação e, por outro lado, beneficiar os Business Angels devido às dificuldades que surgem na concessão de crédito por parte da banca? 
Nos últimos tempos tenho meditado sobre esse assunto e tenho analisado o que vai suceder à indústria dos Business Angels e aos empreendedores em geral face a este contexto. O capital de risco e os private equity funds estão a sofrer porque são muito alavancados. A vantagem do Business Angel é a utilização de capitais próprios. Normalmente não se alavanca, não usa dívida, pelo que a sua actividade será menos sofredora. Por outro lado, julgo que havendo um impacto ao nível da economia real e ao nível da vida de cada um de nós, haverá pessoas que até agora teriam um emprego estável e que por efeito da crise vão deixar de ter emprego. A alternativa é serem empreendedores. 

Notou esse crescimento do ano passado para este ano? 
Ainda não se notou em termos de quantidade, o que temos notado é em termos de qualidade. Têm-nos aparecido projectos francamente melhores. 

Que tipo de ligações têm com outras instituições? 
Temos protocolos com universidades, porque são uma das fontes mais fortes de novos projectos. Assinámos há pouco tempo um protocolo com o UPTEC, da Universidade do Porto, com o BIC, temos acordos com a Universidade Nova, com o ISCTE, com o Instituto Superior Técnico, de forma a fazermo-nos sócios desses projectos. Uma das nossas actividades é criar essa ligação com as universidades e com os centros tecnológicos, de forma a procurarmos novos projectos. 

Estão ligados a alguma rede internacional? 
Somos membros da EBAN (European Business Angels Network). Essa ligação é muito importante porque vamos buscar melhores práticas, discutir os temas da indústria, saber o que se está a fazer fora e dar indicações sobre o que estamos a fazer em Portugal. 

Que balanço faz após dois anos de actividade? 
O balanço é extremamente positivo, porque quando criámos a associação não sabíamos o que iria acontecer. Começámos com meia dúzia de empresários e gestores e hoje somos 100 associados. Analisamos por ano mais de 100 projectos. Diria que a APDA deixou de ser uma start up para estar em fase de crescimento e consolidação.

 

 

   

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